A Adega Banda d’Além, na Quinta da Estalagem, é uma pequena jóia histórica aninhada entre o esteiro do rio Coina e uma freguesia que já teve muita história e agora está em acelerado crescimento habitacional.

Em Palhais, no concelho do Barreiro, este projeto vitivinícola procura recuperar e valorizar a tradição da produção de vinho naquela que foi já designada como ‘Banda d’Além’, ou a margem esquerda do Tejo.

Embora com um passado recente, uma vez que a replantação de vinha ocorreu em 2017, a adega, mais do que produzir e, sobretudo, reproduzir vinhos históricos, pretende ser um espaço de História e de estórias, numa Quinta que poderá remontar ao séc. XVII.

Por esse motivo, a opção por uma casta autóctone de Bastardo e Fernão Pires, com o intuito de recuperar o extinto vinho licoroso ‘Bastardinho do Lavradio’, numa zona em que as vinhas beneficiam do ar salgado do estuário do Tejo.

“A ideia surgiu quando, numa visita que fiz com o meu marido a esta zona, tentámos encontrar e comprar o vinho licoroso ‘Bastardinho do Lavradio’ mas não conseguimos”, conta ao Diário do Distrito a proprietária, Teresa Canas Martins.

Licenciada em Psicologia, com o marido, Adelino Martins, o terceiro com este nome e o herdeiro da Quinta da Estalagem, este licenciado em Engenharia, iniciaram esta aventura há cerca de vinte anos, “porque sempre pusemos a hipótese de nos mudarmos de Oeiras para o campo, pelo que aproveitámos a Quinta que foi dos meus sogros e se encontrava desabitada”.

É aqui que começam por organizar as ‘Festas na Quinta’, para aproveitar o excelente espaço em eventos, e avançam também para a construção do Centro de Escritórios, junto à urbanização Casas de Santo António, “e por onde se entra na Quinta, embora o ex-libris seja o portão cor-de-rosa que se encontra ao cimo da rua”.

Foi também oportunidade para recuperar o passado histórico em redor da icónica Quinta da Estalagem, “que deve o seu nome às Comendadeiras de Santos da Ordem de Santiago, que durante cerca de oito anos aqui detiveram privilégios sobre terrenos, hospedagem, vinhas e fornos de pão”.

O casal avançou depois para um levantamento histórico, para o qual contribuiu o professor e enólogo Virgílio Loureiro, “que veio ter connosco em 2022, num feliz e perfeito encontro, porque ele é a alma da Adega e quem nos ensinou tudo o que sabemos, bem como nos aconselhou a fazer um curso na Anadia, na Bairrada, sobre vinificação.

É uma pessoa com um conhecimento imenso, o qual tem muito gosto em partilhar, e tem uma paixão imensa pelo vinho e tudo o que lhe está relacionado.”

Teresa Canas Martins recorda que “quando tivemos esse primeiro encontro, já tínhamos plantado a vinha, mas não tínhamos enólogo, pelo que tudo se conjugou”.

A pesquisa histórica levou-os também ao tempo dos romanos. “Ao longo destes anos fomos conhecendo imensas pessoas que estão ligadas e se interessam por História, entre eles os responsáveis da plataforma Lisboa Romana que nos trouxeram, para além do professor Carlos Fabião, também vários arqueólogos que trabalham sobre estas áreas. Infelizmente ainda não vieram cá fazer escavações, mas gostávamos que viessem, e pudessem descobrir mais coisas aqui. São passos que têm de ser tomados aos poucos, e para os quais é preciso também motivar a Câmara Municipal do Barreiro.”

Toda a família está envolvida no projecto, “apesar de eles terem a sua vida, um é veterinário e o outro está a fazer um doutoramento, não têm nada a ver com isto, mas estão sempre presentes no que fazemos e nos eventos que realizamos e temos grandes trocas de ideias, sobre o tipo de vinhos até às designações que lhes podemos dar, e a elaboração dos logotipos, com o que nos ajudou um amigo dos nossos filhos que é designer.”

Mas nem sempre os dois filhos do casal concordaram com esta aventura. “No princípio, pensavam que éramos loucos. E quando surgimos com mais um vinho, algo diferente, ainda dizem que ‘se calhar é melhor pensar um bocadinho melhor’.”

E é da época dos Romanos que se compõe parte da oferta da Adega Banda d’Além.

“Com o levantamento histórico que fizemos, viemos a ver que em Coina existiu um importante porto romano, que permitia a ligação marítima a Mérida.

Eles vinificavam o vinho em potes de barro, da forma como ainda hoje se faz no Alentejo, na talha, embora não possamos utilizar essa designação, porque ‘vinho de talha’ é exclusivo do Alentejo.

No entanto, os romanos não bebiam o vinho em estado puro, digamos. Faziam-no dessa forma, mas depois aromatizavam-nos, criando como que uma interface entre a bebida e o medicamento.”

Na Adega é possível adquirir «bebidas aromatizadas à base de vinho» de origem romana, designação que conforme explica Teresa Canas, “é obrigatória por lei, uma vez que têm apenas 12% de álcool, e por isso não podem receber a designação de ‘vinho’.”

Estão disponíveis o Equabona, o Via XII, o Pote de Barro e o Scapha, com certificação da Lisboa Romana, para os quais o casal contou com a ajuda do professor Carlos Fabião, especialista na área na elaboração.

“O Equabona é uma homenagem ao porto romano que aqui existiu, porto de Equabona. É aromatizado com feno grego. Ou seja, é um vinho que, para os romanos, e segundo a literatura romana, era anti-inflamatório e afrodisíaco.

Depois temos o Via XII, bom para a melancolia, este uma homenagem à via militar romana que saia de Coimbra e ia até Mérida. E o Pote de Barro é aromatizado com uma menta e um bocadinho de rosmaninho, um calmante para o estômago.

O nosso vinho romano mais recente é o Scapha. Estas eram pequenas embarcações romanas que faziam transportes curtos nos rios, aromatizado com Pimpinella anisum, muito bom para o estômago e para os intestinos.

São vinhos completamente diferentes e que mostram o interesse na terapêutica que os romanos tinham.”

…passando pelo ‘Bastardinho do Lavradio’…

Um dos icónicos vinhos do Barreiro, que acompanhou os navegantes durante as viagens dos Descobrimentos é um dos vinhos que o casal está a tentar reproduzir na Quinta.

“O Barreiro esteve muito ligado à época dos Descobrimentos, aqui existiu a maior concentração de moinhos de maré do país, de onde saia a farinha para a confeção do biscoito, nos fornos onde hoje está a Escola de Fuzileiros de Vale de Zebro, e que seguia nas naus.

Uma vez que este vinho licoroso, que remonta aos séculos XIII, XIV, demora pelo menos cinco anos a estar pronto para consumo, ainda não é um produto disponível na Adega da Banda d’Além.”

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